O paradigma da textualidade nas interfaces contemporâneas
Qual é o grande diferencial da interface de linha de comando para a interface gráfica?
Talvez a sua resposta, proveniente do primeiro estímulo, seria a mais óbvia o possível: a acessibilidade das linguagens visuais. Em primeira instância, podemos considerar esta resposta como adequada. Desde que Douglas Engelbart nos apresentou as graphical user interfaces (GUIs, ou, em bom português, interfaces gráficas de usuário), em 1968, este é o principal argumento em seu favor. É irrefutável que a espacialidade e tangibilidade que as GUIs trazem à informação (e a sua organização, em geral) dotam os sistemas operacionais de uma intuitividade incrível.

Porém, devemos pensar um pouco mais nesta resposta tão simplória. O que realmente faz com que a interface gráfica de usuário seja um trunfo na história dos computadores não é o mero fato de dotar a informação de forma ou torná-la mais tangível para o usuário, mas a metaforização visual do ambiente computacional e a projeção do usuário dentro da máquina – como nos apontam vários autores da área, a exemplo de Stephen Johnson, de forma bastante inteligível, em A Cultura das Interfaces. A pequena seta do mouse, presente na tela, trouxe ao usuário a possibilidade de, efetivamente, realizar uma tarefa, e não mais pedir que o computador o fizesse em seu lugar. Ao digitar “dir C:\” o usuário está fazendo um pedido ao computador, similar a: “por favor, liste todos os arquivos que estão na raiz do disco C”. Já o mouse é o próprio usuário, é sua mão, movendo e excluindo arquivos – e não mais pedindo, encarecidamente, ao computador que realize estas ações. E assim as solicitações, grandes e complexas linhas de comandos, deram lugar às ações, seqüências de cliques. Entretanto, no final de tudo, as interfaces gráficas são apenas meios para visualizar informações, “os dados por trás de determinado documento estão na verdade dispersos a esmo pela superfície magnética de um disco rígido” (JOHNSON, 2001, p. 124). Os ícones, janelas e ambientes são apenas ilusões, construídas para nos ajudar a manipular e navegar por entre estas informações.
Fazendo uma válida analogia entre a internet e nossos computadores, Aza Raskin, especialista em ambientes digitais de interação, considera a internet como um espaço caótico, no qual existem muitos serviços e informações coexistindo sem qualquer relação entre elas – concepção certamente herdada de teóricos como Manovich (2006), que define a internet como um aglomerado de dados em suspensão, disponíveis para download (não necessariamente via browser, é válido ressaltar). Em suas elucubrações, Raskin constata um fato que muitas vezes nos passa despercebido: algumas das tarefas que desempenhamos na internet podem vir a exigir muito mais cliques, muito mais esforço, do que a digitação de alguns comandos o faria. Foi exatamente esta constatação que fez Raskin iniciar o desenvolvimento do Ubiquity, um complemento para o navegador web Mozilla Firefox que, quase nostalgicamente, retoma a idéia dos comandos escritos – mas, desta vez, a partir de uma abordagem diferenciada: a semântica.
Para compreender porque a proposta de Raskin não é retrocesso, mas um avanço na usabilidade das interfaces de usuário, devemos pensar nas interfaces de linha de comando e seu principal problema: a limitação do repertório de comandos. Quando digitamos um comando em um terminal, o sistema operacional não o interpreta, apenas o reconhece. É isso que o computador se resume a fazer: reconhecer os comandos escritos, a partir da comparação com um banco de comandos pré-estabelecidos, e executá-los. Contudo, sabemos perfeitamente que a linguagem escrita, como os humanos a utilizam, não se baseia só na equivalência – pelo contrário, nos deparamos freqüentemente com significados sem uma expressão definida ou várias expressões que possuem um mesmo significado. Em resumo: as línguas (sim, qualquer uma delas) são regidas pela semântica, não pela sintaxe.
Com o Ubiquity, Raskin propõe uma substituição deste modo de manipulação sintático por um modelo semântico, no qual que possamos “dar sentido” ao caos informacional que é a web – a articulando e operando da mesma forma que fazemos com nossas idéias e nossa linguagem. É uma interface que não exige de nós a memorização de uma lista interminável de comandos, mas que entenda nossas solicitações, da forma que, de fato, as fazemos. O complemento permite que o usuário ative uma série de serviços (previamente integrados) a partir da entrada de pequenos comandos escritos diretamente no navegador.
No vídeo de apresentação do projeto (abaixo), Raskin ratifica a utilidade de sua criação com uma situação bastante comum: o envio de um e-mail com um mapa – apesar do Wave, lançado bastante tempo depois do anúncio do Ubiquity, propor outra solução (gráfica) para esta mesma situação, o exemplo continua perfeitamente cabível. Para realizar esta tarefa, o usuário faria uma série de tarefas simultâneas ao processo de composição da mensagem em si: 1. abrir o e-mail; 2. abrir o Google Maps; 3. buscar a localização desejada e 4. Colar o link do mapa no e-mail. Todo o processo exigiria, além de bastante tempo, vários cliques e resultaria em um e-mail com um link e não um mapa – o que faz bastante diferença para o destinatário. O Ubiquity altera radicalmente esta dinâmica; com ele tudo que o usuário precisa fazer é digitar “map” seguido do endereço desejado e o mapa é inserido no e-mail.
O Ubiquity, sem dúvidas, torna mais ágeis atividades corriqueiras pela sintetização de suas ações em comandos escritos, porém ele ainda não pode ser caracterizado como uma espécie de modelo semântico de interface de usuário. O complemento funciona, assim como as antigas linhas de comando, a partir de um repertório pré-estabelecido de comandos (e serviços). Atualmente, ele conta com aproximadamente 80 comandos, relativos a atividades comumente realizadas na web (busca, tradução, envio de mensagens, localização de lugares, entre outros) – ou seja, pela simplicidade e abrangência dos comandos ele simula uma interface semântica, mas não é. Ainda assim, o Mozilla Ubiquity traz uma diferença que o torna bastante significativo: o fato dele ser um software livre, um projeto open-source com o qual qualquer indivíduo pode colaborar construindo e compartilhando comandos com a comunidade a partir da API do complemento – escrita em Javascript, linguagem de programação extremamente popular na internet.
É bom ver que, enquanto o novo orgasmo do mundo da tecnologia são projetos de interfaces gráficas manipuladas pelo toque (e a supressão, cada vez maior, dos inputs de texto), ainda existem pessoas que pensam diferente.
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